OS DONS À LUZ DA BÍBLIA

 

INTRODUÇÃO

Os dons são um tema fascinante e enriquecedor, que exige do estudante da Bíblia conhecimento relacionado às regras de interpretação de texto, a fim de evitar distorções doutrinárias, já que o assunto requer muito critério em sua abordagem, em função das controvérsias que giram em torno dele. Podemos agrupar as várias interpretações relacionadas à atualidade dos dons em duas correntes teológicas: a pentecostal e a tradicional (reformada), sem desprezar a corrente neopentecostal, movimento surgido a partir dos anos 1960, nos Estados Unidos, que reduz a manifestação do Espírito Santo na Igreja, através dos dons, a meras reações positivistas daqueles que buscam a bênção de Deus.

Outro grande desafio é enfrentar o misticismo e o fanatismo presentes em algumas igrejas pentecostais em relação à operação do Espírito Santo na atualidade. Muitos cristãos, posicionando-se como servos especiais, se apropriam dos dons como se fossem propriedade particular e os utilizam ao bel-prazer, desprezando completamente as regras bíblicas relacionadas ao assunto. Isso tem criado uma grande teia de confusão no meio do povo de Deus, abrindo espaço para o charlatanismo, o mercantilismo e outras práticas espirituais que desagradam a Deus. O misticismo e o fanatismo têm trazido consigo descrédito em relação à realidade e à atualidade da operação do Espírito Santo. Lamentavelmente, essas duas distorções promovem a dúvida entre o verdadeiro e o falso, entre o operar de Deus e o operar do homem.

Abordar um tema teológico de tão grande importância nos impõe muita responsabilidade, critério e exige ousadia espiritual para encarar de frente tudo o que há de falso sobre o assunto. Não devemos esquecer que a responsabilidade traz consigo o privilégio, e isso nos leva à gratidão a Deus por nos ter agraciado com seus dons, a fim de que sejamos instrumentos de edificação e crescimento do povo de Deus. Dessa forma, os servos do Senhor não se deixarão enganar, levados por qualquer corrente de doutrina que surja com o propósito de desviar a Igreja de Cristo do rumo certo e de privá-la do verdadeiro operar do Espírito Santo.

Os dons são uma realidade na atualidade, da mesma forma que eram na Igreja Primitiva. O que nos falta é humildade e disponibilidade para nos colocarmos diante de Deus apenas como instrumentos para a glória do Seu Nome, sem buscarmos repartir com Ele o que Lhe é exclusivo.

Os dons são dados à Igreja, não a indivíduos em particular. O propósito deles é trazer ajuda, edificação e aperfeiçoamento espiritual. O cristão agraciado por um dom deve sentir-se privilegiado e agradecido, reconhecendo que o Senhor concede, não por méritos pessoais, mas por sua graça e misericórdia.

Esperamos que este texto produza bênçãos na vida de muitos servos de Deus e que os ajude a viver na plenitude do Espírito, buscando intensamente a manifestação do Espírito Santo em suas vidas, para que sejam instrumentos de Deus na edificação e no aperfeiçoamento dos santos, bem como no crescimento e na expansão do Reino de Deus na terra.

Capítulo I - TRAZENDO À LUZ OS DONS

O termo dom vem do grego charisma e significa uma dádiva recebida pela graça de Deus. Os dons são capacitações espirituais concedidas por Deus aos homens, de forma imerecida, por meio da Sua graça, com o propósito de prover recursos para a administração da Igreja, a assistência social, a expansão da Sua obra na terra, o crescimento, o bem comum e a edificação dos fiéis.

O único escritor bíblico que sistematizou a doutrina dos dons foi o apóstolo Paulo. Há três passagens bíblicas em que ele apresenta listas de dons. A primeira está em Romanos 12:4-8; a segunda em 1 Coríntios 12:1-30; e a terceira em Efésios 4:8-12.

Na primeira passagem, em Romanos 12:4-8, o apóstolo Paulo apresenta os dons de forma genérica, sem classificá-los. Ele afirma:

“Assim como cada um de nós tem um corpo com muitos membros, e esses membros não exercem todos a mesma função, assim também em Cristo, nós, que somos muitos, formamos um corpo, e cada membro está ligado a todos os outros. Temos diferentes dons, de acordo com a graça que nos foi dada. Se alguém tem o dom de profetizar, use-o na proporção da sua fé. Se o seu dom é servir, sirva; se é ensinar, ensine; se é dar ânimo, que assim faça; se é contribuir, que contribua generosamente; se é exercer liderança, que a exerça com zelo; se é mostrar misericórdia, que o faça com alegria.”

Neste texto, Paulo descreve dons como capacitações sobrenaturais para servir, que podem ser chamados de dons de diaconia (profetizar, servir, ensinar, dar ânimo, contribuir, exercer liderança e mostrar misericórdia). Todo e qualquer serviço realizado na obra do Senhor exige, além das habilidades humanas, uma capacitação por meio da atuação do Espírito Santo na vida daqueles que são alcançados pela graça (charis) de Deus. A Igreja só tem vida como organismo se estiver completamente envolvida pela operação do Espírito Santo.

Considerando a importância e a necessidade de a Igreja estar submissa, em tudo o que faz, à operação do Espírito Santo, o apóstolo se preocupa em qualificar os dons, estabelecendo grupos distintos. Assim, eles podem ser classificados em três categorias:

  • Dons de serviço – capacitações sobrenaturais para o serviço diaconal da Igreja (Romanos 12:6-8).
  • Dons espirituais – capacitações sobrenaturais visando ao bem comum da Igreja (1 Coríntios 12:1-10).
  • Dons ministeriais – capacitações sobrenaturais destinadas a preparar os santos para a obra do ministério, a fim de que o corpo de Cristo seja edificado (Efésios 4:8-12).

Paulo enfatiza que há diferentes tipos de dons, de ministérios e de formas de atuação, mas o Espírito é o mesmo (1 Coríntios 12:4-6).

Capítulo II - AS DUAS PRINCIPAIS CORRENTES TEOLÓGICAS

No que concerne aos dons, há duas principais correntes teológicas: o continuísmo e o cessacionismo. Entre elas existem divergências e convergências que precisam ser conhecidas, a fim de que tenhamos um posicionamento claro e fundamentado na Bíblia, a Palavra de Deus. É evidente que ambas defendem suas teses baseando-se em interpretações de textos bíblicos ou em análises particulares.

Na teologia reformada, a discussão sobre os dons concentra-se em dois pontos centrais:

  1. A natureza e a finalidade dos dons;
  2. A continuidade ou cessação de alguns dons.

No primeiro ponto há maior consenso; no segundo, há divergência interna.

Todos os teólogos reformados (ou calvinistas) concordam que:

  • Os dons são obra soberana do Espírito Santo, distribuídos como Ele quer (1 Coríntios 12:11);
  • Sua finalidade é edificar a Igreja por meio do serviço mútuo e do testemunho de Cristo (Efésios 4:12; 1 Pedro 4:10);
  • O amor é o dom mais importante (1 Coríntios 13);
  • Eles devem ser exercidos com decência e ordem no culto (1 Coríntios 14:40).

Jonh Calvino, em sua obra Commentary on 1 Corinthians, afirmou: “Os dons espirituais são expressões da multiforme graça de Deus, e sua diversidade reflete a beleza da obra do Espírito no corpo de Cristo.

A maioria dos teólogos reformados defende o cessacionismo. Entre eles estão John MacArthur, B. B. Warfield e R. C. Sproul. Baseiam-se em 1 Coríntios 13:8-10, onde Paulo declara: “O amor nunca perece; mas as profecias desaparecerão, as línguas cessarão, o conhecimento passará”. Esses autores dão ênfase à suficiência das Escrituras, afirmando que alguns dons — chamados “dons de sinais”, como línguas, profecias, curas e operação de milagres — cessaram após a era apostólica, uma vez que tinham a função de confirmar a revelação de Deus até o fechamento do cânon sagrado. Ressaltam, contudo, que os demais dons permanecem na Igreja.

Entretanto, dentro do movimento reformado há também defensores do continuísmo. Entre os principais estão Martyn Lloyd-Jones, Wayne Grudem, John Piper e Sam Storms. Eles creem que todos os dons listados no Novo Testamento continuam em vigor ainda hoje, baseando-se em Atos 2:17-18 e 1 Coríntios 14:1, defendendo que todos devem ser exercidos com ordem e submissão à Palavra de Deus.

Como ponto de equilíbrio, muitos reformados defendem que Deus continua realizando milagres, mas estes não têm a mesma função normativa que possuíam na era apostólica. Assim, devemos buscar os dons que promovem a edificação, sem cair no erro de negar ou desprezar a atual obra do Espírito.

O teólogo Wayne Grudem, continuísta reformado, afirma: “O perigo não é apenas negar os dons, mas também usá-los sem amor e sem submissão à Escritura. O equilíbrio é bíblico: buscar com zelo e exercer com discernimento.”

Entre os teólogos arminianos, a grande maioria defende o continuísmo. Eles afirmam que todos os dons permanecem presentes na Igreja e são essenciais para a missão e santificação do povo de Deus. Nesse sentido, o Espírito Santo coopera com os crentes, confirmando a mensagem do Evangelho (Marcos 16:17-18; Atos 2:17-18). Afirmam ainda que Paulo incentivou a Igreja a buscar os dons espirituais (1 Coríntios 14:1).

Os principais arminianos que defendem essa posição foram John Wesley, William Pope e Richard Watson, além dos arminianos pentecostais Donald Gee e Myer Pearlman, que estruturaram a teologia pentecostal no século XX.

Os arminianos sustentam que o crente deve buscar e exercer os dons, tomando cuidado para não negligenciá-los, a fim de que não sejam apagados (1 Timóteo 4:14; 1 Tessalonicenses 5:19). Ressaltam ainda que, sem vida santa, os dons são ineficazes (Hebreus 12:14), e devem ter como foco o serviço, não o status espiritual, sem limitar a forma como o Espírito Santo age (João 3:8).

A tese do continuísmo, na atualidade, é amplamente defendida pelas igrejas e teólogos pentecostais e também por grande parte dos teólogos e igrejas batistas. Entre eles estão John Piper, Sam Storms, Craig Keener, Matt Chandler, Jack Deere e Wayne Grudem. Contudo, é importante ressaltar que entre os batistas também há cessacionistas, como John MacArthur e Al Mohler.

Como estudante da Bíblia e pastor batista, posiciono-me em defesa do continuísmo, crendo que servimos a um Deus que prometeu estar conosco todos os dias até a consumação dos séculos (Mateus 28:20), confirmando a mensagem do Evangelho através de milagres e maravilhas (Marcos 16:17-18).

Todos os dons cabem e se aplicam à Igreja de hoje, desde que sejam exercidos à luz do ensino da Palavra de Deus, com decência e ordem (1 Coríntios 14:40), “porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as igrejas dos santos” (1 Coríntios 14:33).

Em minha caminhada cristã, tenho sido testemunha da manifestação de todos os dons na Igreja, sendo eles exercidos de acordo com o ensino do apóstolo Paulo em 1 Coríntios 12 a 14, trazendo bênção, edificação e crescimento aos santos.

Capítulo III - DONS DE SERVIÇO

Baseando-nos em Romanos 12:6-8, podemos afirmar que os dons de serviço (do grego diakoneo) estão diretamente ligados ao serviço diaconal da Igreja, na esfera prática e assistencial. Do termo diakoneo deriva-se a palavra “diácono”, na língua portuguesa, que significa “aquele que serve, que atende, que assiste, que ministra”.

Quando falamos de dons de serviço, não estamos nos referindo ao ministério diaconal em si, mas a dons distribuídos pelo Espírito Santo na Igreja com o propósito de capacitar os crentes a servirem aos irmãos em suas necessidades assistenciais e espirituais (Atos 6:1-7).

Para facilitar a compreensão, vamos definir resumidamente cada um dos dons de serviço:

Profetizar – como dom de diaconia, profetizar aqui (grego prophēteuō) está relacionado a trazer edificação e consolo com base na Palavra de Deus para aqueles que necessitam, e não a uma mensagem de origem sobrenatural.

Servir – aquele que tem o dom de servir o faz de modo singular, com alegria e graça. Há irmãos que se dedicam voluntariamente e com desprendimento a servir aos demais e também à igreja como corpo, ajudando-os no que for necessário.

Ensinar – quem possui o dom de ensinar recebe capacitação do Espírito Santo para apresentar temas importantes, muitas vezes de difícil compreensão, com clareza e leveza, facilitando o entendimento. Esses irmãos servem de modo especial na Escola Bíblica Dominical ou em qualquer atividade de ensino da Igreja.

Dar ânimo – os que recebem este dom são especialmente qualificados pelo Espírito Santo para consolar e fortalecer os que estão tristes, enfermos, angustiados, decepcionados ou atribulados. Suas palavras tornam-se um bálsamo para a alma ferida e cansada.

Contribuir – não se trata aqui de contribuição financeira. O termo deriva do grego koinonia, que significa companheirismo, comunhão, defesa do interesse comum. Há irmãos que são especialmente vocacionados para promover unidade, fraternidade e companheirismo, buscando o bem de todos acima de interesses particulares ou egoístas.

Exercer liderança – há pessoas que são naturalmente reconhecidas como líderes. Na Igreja, o Espírito Santo capacita alguns para conduzir o povo de Deus segundo a Sua vontade. Não se trata de liderança por nomeação ou título eclesiástico, mas de uma liderança espontânea, reconhecida pela comunidade.

Misericórdia – exercer a misericórdia requer dependência de Deus, pois não é fácil ser misericordioso em um mundo egoísta e materialista. Alguns irmãos são capacitados para se compadecer dos necessitados, socorrer aflitos, chorar com os que choram e sentir a dor do próximo como se fosse a sua própria.

Capítulo IV - OS DONS ESPIRITUAIS OU DE MANIFESTAÇÃO

Como já dissemos, os dons espirituais ou de manifestação são capacitações sobrenaturais concedidas pelo Espírito Santo com o objetivo de promover o bem comum da Igreja (1 Coríntios 12:7).

Paulo menciona como dons espirituais: palavra de sabedoria, palavra de conhecimento, fé, dons de curar, operação de milagres, profecia, discernimento de espíritos, variedade de línguas e interpretação de línguas (1 Coríntios 12:4-10).

Os dons espirituais podem ser classificados em três subgrupos: dons de saber; dons de poder e dons de expressão vocal

Os dons de saber são aqueles que atuam como os olhos espirituais da Igreja: palavra de sabedoria, palavra de conhecimento e discernimento de espíritos. Os dons de poder são os que atuam como as mãos espirituais da Igreja: fé, dons de curar e poder para operar milagres. Os dons de expressão vocal são como a boca espiritual da igreja: profecia, variedades de línguas e interpretação de línguas.

Os dons espirituais, repito, são dados à igreja com o propósito de promover o bem comum. Eles não são propriedade particular de ninguém, nem é dado a alguém como um privilégio. Aquele que recebe um dom, deve saber que foi alcançado pela graça de Deus e que deve usá-los sempre envolvido pela operação do Espírito Santo, sentindo-se um, dentre os vários membros do corpo místico de Cristo que é a Igreja. Ninguém deve sentir-se maior ou melhor que os demais por possuir este ou aquele dom. Paulo diz que o Espírito concede a cada um como quer e mostra que como membro do corpo de Cristo não somos melhores nem piores, pelo contrário, há a necessidade de que haja diversidade e sincronismo no funcionamento de cada membro ou órgão para que o corpo seja perfeito, sadio. Ele destaca também que

[...] o olho não pode dizer à mão: "Não preciso de você!" Nem a cabeça pode dizer aos pés: "Não preciso de vocês!" Ao contrário, os membros do corpo que parecem mais fracos são indispensáveis, e os membros que pensamos serem menos honrosos, tratamos com especial honra. E os membros que em nós são indecorosos são tratados com decoro especial, enquanto os que em nós são decorosos não precisam ser tratados de maneira especial  (1 Coríntios 12: 21-24). 

Os dons não são concedidos ao acaso, Deus escolhe pessoas de acordo com a capacidade de administrá-los, isto ficou evidente na parábola dos talentos.

"E também será como um homem que, ao sair de viagem, chamou seus servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois, e a outro um; a cada um de acordo com a sua capacidade. Em seguida partiu de viagem (Mateus 25: 14-15). 

Entretanto, é importante sabermos que a capacitação natural não é o único requisito observado pelo Senhor. A dependência de Deus e o desprendimento em servi-lo, são mais importantes que as qualificações naturais e as adquiridas através do processo de aprendizagem e convivência social. Paulo diz que o Espírito distribui os dons como quer, de acordo com a vontade exclusiva de Deus (1 Coríntios 12:11).

Há cristãos que se apossam dos dons como se fossem sua propriedade ou privilégio. Eles tentam exercitá-los buscando satisfazer os seus próprios interesses. Este é um erro grave e que tem causado muitos males à Igreja. Os dons devem ser usados com muita sabedoria e não com criancice, considerando que Deus não é de confusão e sim de paz (1 Coríntios 14:33). O Todo Poderoso não se deixa manipular.

Ao falar de dons espirituais Paulo apresenta nove dons (1 Coríntios 12:4-10). Alguns destes dons são desconhecidos pela maioria dos cristãos. Não é comum nas igrejas falar de dons que, aparentemente, não têm destaque social. O conhecimento do que seja cada dom e o seu propósito na Igreja ajudará a aqueles que desejam servir a Deus com maior comprometimento a buscarem os dons com maior segurança e propósito.  É com este objetivo que apresentamos uma breve definição para cada um destes dons:

Palavra de Conhecimento – concede compreensão sobrenatural dos mistérios de Deus, sendo uma força especial para o ministério de ensino (Efésios 3:3-19).

– trata-se de uma fé especial e sobrenatural, que ultrapassa a confiança comum em Deus, manifestando-se em momentos críticos com certeza plena de vitória (Marcos 11:22-23).

Dons de curar – poder sobrenatural concedido por Deus para curar enfermidades, sempre de acordo com a vontade divina e visando edificação da Igreja e a manifestação do poder de Deus (Atos 3:6-8; Marcos 16:20).

Operação de milagres – manifestações que vão além das leis naturais, como ressurreições e eventos extraordinários que põem em xeque as leis naturais e vão além da compreensão racional, evidenciando o poder ilimitado de Deus (Atos 9:36-41; Atos 13:9-11).

Discernimento de espíritos – capacidade de identificar a origem das manifestações espirituais, distinguindo se procedem de Deus, do homem ou do maligno (Atos 5:1-11; Apocalipse 2:20).

Variedade de línguas – dom concedido para transmitir mensagens em línguas espirituais ou desconhecidas pelo falante, devendo ser acompanhado de interpretação para edificação da Igreja (1 Coríntios 14:27-28).

Interpretação de línguas – atua em conjunto com o dom de línguas, permitindo que a mensagem seja compreendida pela Igreja, tendo o mesmo valor da profecia. A interpretação pode ser por ação direta do Espírito Santo na vida do intérprete ou pelo conhecimento da língua que está sendo falada (1 Coríntios 14:5).

Profecia – mensagem de Deus transmitida por intermédio humano para edificação, consolação, encorajamento ou revelação futura. Deve ser julgada pela Igreja, pois pode ter origem divina, humana ou até satânica (1 Coríntios 14:29; 1 Tessalonicenses 5:20-21).

A profecia, assim como os demais dons, deve sempre ser avaliada, pois existem falsas profecias, já mencionadas desde o Antigo Testamento (Jeremias 23:16-21). O objetivo da profecia verdadeira é edificar, encorajar, consolar e, em alguns casos, revelar o futuro (1 Coríntios 14:3; Atos 11:27-28; 21:10-11). 

Além das falsas profecias há também falsas manifestações de outros dons (Mateus 7:21-23) Todo uso indevido dos dons é condenado pelo Senhor.

Capítulo V - OS DONS MINISTERIAIS

Chamamos de dons ministeriais aqueles relacionados por Paulo em Efésios 4:11-13:

“E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo.”

Neste texto, reforçado pelo que Paulo escreve à igreja em Corinto (1 Coríntios 12:28-30), identificamos cinco dons: apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. Há diferentes dons porque, no ministério da Igreja, existem serviços e necessidades variadas. Para atender a essa diversidade, é necessário que haja diferentes capacitações. É aqui que o Espírito Santo atua, vocacionando fiéis para o exercício desses dons.

Breve Descrição dos Dons Ministeriais

Apóstolo – o termo apóstolo origina-se do grego apostolos e significa literalmente “enviado”. Na Bíblia, está sempre relacionado aos doze, ao apóstolo Paulo e também a Jesus (Hebreus 3:1). Paulo é o apóstolo dos gentios (Romanos 11:13), aquele que foi enviado a pregar aos não judeus. Jesus é o enviado do Pai para salvar a humanidade da condenação por causa do pecado (Mateus 4:32). Os doze foram enviados a pregar o evangelho e a fazer discípulos por todo o mundo (Mateus 28:16-20). Observemos que o título está sempre relacionado ao trabalho missionário, dado a pessoas enviadas a desenvolver trabalhos pioneiros. O apostolado não é um título eclesiástico, mas um ministério. O apóstolo é aquele que foi capacitado para implantar e edificar trabalhos pioneiros, sobretudo transculturais, sendo um embaixador do Reino de Deus.

Profeta – vem do grego prophetes e significa “proclamador de uma mensagem divina” ou “aquele que fala em público, um mensageiro”. O profeta não é aquele que tem o dom de profetizar, mas sim o ministério de profeta. O dom de profetizar é espiritual; o ministério de profeta é ministerial. O dom de profetizar é dado a qualquer irmão, já o dom de profeta somente aos vocacionados por Deus. Apesar de ambos transmitirem a Palavra de Deus, não são equivalentes. Quem tem o dom de profetizar transmite esporadicamente mensagens especiais vindas da parte do Senhor. Já o profeta, no ministério, está continuamente diante da igreja, transmitindo a mensagem da Palavra de Deus inspirado pelo Espírito Santo, com o objetivo de edificar os santos e preparar a igreja para a obra do Senhor.

Evangelista – do grego euangelistés, significa “mensageiro do bem”, “proclamador de boas notícias”. Todo cristão pode e deve evangelizar, anunciando as boas novas do Evangelho. Contudo, alguns recebem de Deus capacitação especial para esse trabalho. São pessoas carismáticas, capazes de plantar igrejas, reunir o povo em torno da Palavra e desenvolver trabalhos de evangelização em massa com eficácia. É um ministério importante e semelhante ao apostólico, já que ambos atuam na expansão da obra do Senhor. A diferença é que o apóstolo desenvolve trabalhos em locais onde o Evangelho ainda não chegou, enquanto o evangelista exerce a evangelização no cotidiano da igreja.

Pastor – do grego poimen, significa “aquele que cuida de rebanhos”, e metaforicamente, “aquele que cuida da Igreja de Cristo”. O pastor conduz, governa e serve de guia espiritual. É quem atende às necessidades espirituais da igreja, consola os fiéis, fortalece os fracos na fé e provê alimento espiritual às ovelhas de Cristo (Salmos 23:1-4). Ele é o líder espiritual da igreja, responsável por conduzi-la segundo a vontade de Deus (Hebreus 13:17).

Mestre – do grego didaskalos, significa “doutor”, “aquele que ensina, instrui, doutrina”. O mestre recebe capacitação sobrenatural para ensinar e instruir a Igreja, penetrando nos mistérios de Deus e transmitindo-os com clareza. Seu objetivo é fortalecer espiritualmente os crentes, aprofundando-os no conhecimento da Palavra e da vontade de Deus. O ministério de mestre é de grande importância, pois auxilia a Igreja a compreender a verdade e a conquistar maturidade espiritual (Efésios 4:14).

Considerações adicionais

É possível que uma só pessoa receba mais de um dom, inclusive dons ministeriais. Na parábola dos talentos, Jesus mostra isso ao afirmar que o homem que saiu de viagem entregou cinco talentos a um servo, dois a outro e um a outro, de acordo com a capacidade de cada um (Mateus 25:14-15). No episódio da multiplicação dos pães, o rapaz possuía cinco pães e dois peixes (João 6:8).

O apóstolo Paulo é um exemplo claro de servo que possuía todos os dons ministeriais: foi apóstolo dos gentios; profeta que trouxe mensagens e exortações poderosas; evangelista incansável; mestre que sistematizou as principais doutrinas do cristianismo; e pastor amoroso que protegeu as ovelhas de Cristo dos falsos mestres e profetas.

Na atualidade, em muitas igrejas, os ministérios se transformaram em títulos eclesiásticos. O evangelista é visto como menor que o pastor, e o apóstolo como maior que o pastor. São títulos que estabelecem uma hierarquia, sem relação com a verdadeira vocação ministerial. Observa-se ainda que ninguém é ordenado profeta ou mestre, apenas evangelista, pastor e, em algumas denominações, apóstolo. Será que Deus não concede mais os dons de profeta e mestre?

Os ministérios não foram dados por Deus para estabelecer hierarquia, mas para oferecer à Igreja servos capacitados para suprir todas as suas necessidades. Não há ministério inferior ou superior: todos são igualmente importantes e necessários para que a obra do Senhor cresça com saúde espiritual e os santos sejam aperfeiçoados até alcançarem a medida da plenitude de Cristo (Efésios 4:11-13).

Assim, os dons ministeriais têm como propósito o aperfeiçoamento dos santos, o preparo para o serviço cristão e a edificação da Igreja, conduzindo os crentes à unidade da fé e ao pleno conhecimento de Cristo. É pelo exercício desses dons que os fiéis alcançam maturidade espiritual. Sem ensino e sem orientação sólida na Palavra, a Igreja torna-se inconstante, e os crentes tornam-se presa fácil dos falsos mestres que buscam apenas seus interesses egoístas e mercenários. É justamente para fortalecer e imunizar a Igreja contra falsas doutrinas que o Senhor levanta homens e mulheres, capacitando-os sobrenaturalmente com diferentes dons para atender a todas as necessidades do Seu povo.

Capítulo VI - O USO INDEVIDO DOS DONS

Há, em várias igrejas, muita desordem e misticismo no que se refere ao uso dos dons. Não se pode negar que também há, em outras, muito ceticismo. A falta de conhecimento da Palavra de Deus, ou a sua distorção proposital, é a principal causa tanto do misticismo quanto do ceticismo. É necessário encontrar o caminho do equilíbrio, buscando no Senhor orientação ao estudar a Bíblia Sagrada.

Tanto os céticos quanto os místicos trazem males à Igreja. Ambos são igualmente perigosos porque desviam o povo de Deus da rota estabelecida em sua Palavra. Os céticos negam a existência ou a atualidade dos dons e impedem o povo de experimentar a realidade da operação do Espírito Santo na Igreja. Os místicos, por sua vez, creem nos dons de forma deturpada e conduzem os servos do Senhor ao erro, fazendo com que uns desconfiem da realidade dos dons e outros não consigam separar o divino do humano, o poder de Deus do poder da carne, o operar do Senhor do operar do reino das trevas. São pessoas que vivem em um mundo irreal, com uma fé e uma prática cristã baseadas apenas em sentimentalismos, totalmente desprovidas de racionalidade. No exercício dos dons, Paulo rogou aos Romanos que fossem racionais e equilibrados (Romanos 8:1-3).

O misticismo abre caminho para que impostores e mercenários atuem livremente na Igreja, enganando o povo de Deus com falsas curas, milagres, profecias, revelações e línguas.

A Igreja precisa entender que os falsos profetas e mestres mais perigosos são justamente os que atuam dentro dela. Jesus advertiu os discípulos: “Cuidado, que ninguém os engane. Muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Sou eu!’ e enganarão a muitos” (Marcos 13:5-6). E disse ainda: “Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos” (Mateus 7:15-16). Paulo também advertiu os tessalonicenses: “Não deixem que ninguém os engane de modo algum” (2 Tessalonicenses 2:3).

Nem todos os milagres e manifestações têm origem divina. O próprio Jesus afirmou:

Nem todo aquele que me diz: 'Senhor, Senhor', entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: 'Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?' Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal! (Mateus 7:21-23).

Por isso, o crente deve ter a sua fé fundamentada na Palavra do Senhor, a verdadeira profecia. Continuando o ensino, Jesus disse:

Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as pratica é como um homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela não caiu, porque tinha seus alicerces na rocha.  Mas quem ouve estas minhas palavras e não as pratica é como um insensato que construiu a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela caiu. E foi grande a sua queda (Mateus 7:24-27).

Fundamentado na Palavra, o crente é capacitado para discernir a origem das manifestações e milagres. Por isso o ensino da Palavra de Deus na Igreja é tão importante. É ela quem instrui, alimenta, fortalece a fé, conduz ao conhecimento de Deus e da verdadeira doutrina. Preocupado com a ação dos falsos mestres e profetas, Paulo instruiu seu discípulo Timóteo:

Até a minha chegada, dedique-se à leitura pública da Escritura, à exortação e ao ensino. Não negligencie o dom que lhe foi dado por mensagem profética com imposição de mãos dos presbíteros. Seja diligente nessas coisas; dedique-se inteiramente a elas, para que todos vejam o seu progresso. Atente bem para a sua própria vida e para a doutrina, perseverando nesses deveres, pois, agindo assim, você salvará tanto a si mesmo quanto aos que o ouvem (I Timóteo 4:13-16).

Os dons não podem ser usados para promoção pessoal, tampouco para ganho financeiro. Não se pode transformar milagres e outras manifestações do Espírito em instrumentos de barganha para conseguir dinheiro. Hoje não são poucas as igrejas que se tornaram verdadeiras empresas da fé, empreendimentos cujo principal propósito é o lucro. Vai-se ao “culto da bênção” ou “dos milagres” para receber algo, mas somente se houver oferta financeira. Isso é heresia!

O crente deve contribuir na Casa de Deus por liberalidade, como exercício de fé, crendo na prosperidade prometida por Deus (Malaquias 3:10-11), não para comprar uma bênção ou um milagre. A bênção de Deus não se compra com dinheiro. Quando Simão quis comprar a manifestação do Espírito Santo, Pedro lhe disse:

Pereça com você o seu dinheiro! Você pensa que pode comprar o dom de Deus com dinheiro? Você não tem parte nem direito algum neste ministério, porque o seu coração não é reto diante de Deus.  Arrependa-se dessa maldade e ore ao Senhor. Talvez ele lhe perdoe tal pensamento do seu coração, pois vejo que você está cheio de amargura e preso pelo pecado (Atos 8:20-23).

Certa vez fui a uma “igreja empresa”, num culto de milagres. Como se tratava de um “culto de milagres”, a mensagem do pastor teve como propósito estimular a fé das pessoas no sentido de que elas dessem a maior oferta possível para que recebessem naquele culto a benção de Deus. Ao final da mensagem, o referido pastor apresentou ao povo uns papéis, os quais ele denominava de “passaporte para a benção”, eram apenas 20 passaportes. Cada passaporte custava mil reais. Quem os adquirisse teria a benção garantida. Como nem todos os passaportes foram vendidos houve uma liquidação e o preço baixou para quinhentos reais, com a informação de que a garantia não era a mesma, ou seja, era uma garantia relativa. Como nem pela metade do preço todos os passaportes foram vendidos, nova liquidação foi lançada, o preço baixou para duzentos reais. Ao vender por este novo preço o pastor foi enfático em afirmar que era possível receber a benção pretendida, mas que não podia dar a mesma garantia dada a aqueles que compraram por mil ou quinhentos reais. Isto é uma blasfêmia, uma afronta ao Espírito Santo. O dom de Deus não se compra com dinheiro. Lembremos que Simão, o mago foi severamente repreendido por Pedro em Samaria quando tentou comprar o dom de Deus com dinheiro (Atos 8:18-23). É lamentável vir que muitos se deixam levar e enganar por estes mercenários que usam de subterfúgios para operar falsos milagres ou milagres cuja origem não é divina.

Jesus nunca operou milagres em troca de ofertas; o que Ele exigia era fé (Marcos 9:17-24).

Além dos falsos curandeiros e milagreiros, há falsos profetas que entregam mensagens em troca de dinheiro, viagens ou benefícios pessoais. São os profetas da linhagem de Balaão, que só se inspiram quando há interesse financeiro. Pedro os descreveu com firmeza em 2 Pedro 2:1-18, alertando que são gananciosos, corruptos e exploradores.

É o conhecimento da Palavra do Senhor e uma vida de intimidade com Deus que conduzem o crente à imunidade contra tais males que assolam a Igreja de Deus na atualidade. Minha recomendação é que leiam a Bíblia, orem e peçam ao Espírito Santo que lhes dê discernimento, para que possam distinguir os falsos mestres e profetas dentre aqueles que Deus tem chamado e capacitado para trazer edificação e aperfeiçoamento à Igreja do Senhor.

Pela visibilidade que trazem, os dons mais exercitados em desacordo com a Palavra de Deus são: línguas, profecias, cura e milagres. Com base no que já acontecia em seu tempo, em particular na igreja em Corinto, Paulo traz orientações seguras sobre o uso desses dons.

Paulo orientou a igreja em Corinto dizendo: “Portanto, meus irmãos, busquem com dedicação o profetizar e não proíbam o falar em línguas. Mas tudo deve ser feito com decência e ordem” (1 Coríntios 14:39-40).

Não se deve falar em línguas irracionalmente. É necessário entender que quem fala em línguas fala a Deus e não aos homens (1 Coríntios 14:2). Se, falando em línguas, falamos apenas a Deus, devemos fazê-lo somente quando houver intérprete, caso estejamos em público. A ausência do intérprete torna a mensagem inútil e incapaz de promover edificação, já que não pode ser compreendida. Vejamos o que Paulo diz:

“Agora, irmãos, se eu for visitá-los e falar em línguas, em que lhes serei útil, a não ser que lhes leve alguma revelação, ou conhecimento, ou profecia, ou doutrina? Até no caso de coisas inanimadas que produzem sons, tais como a flauta ou a cítara, como alguém reconhecerá o que está sendo tocado, se os sons não forem distintos? Além disso, se a trombeta não emitir um som claro, quem se preparará para a batalha? Assim acontece com vocês. Se não proferirem palavras compreensíveis com a língua, como alguém saberá o que está sendo dito? Vocês estarão simplesmente falando ao ar. Sem dúvida, há diversos idiomas no mundo; todavia, nenhum deles é sem sentido. Portanto, se eu não entender o significado do que alguém está falando, serei estrangeiro para quem fala, e ele, estrangeiro para mim. Assim acontece com vocês. Visto que estão ansiosos por terem dons espirituais, procurem crescer naqueles que trazem edificação para a igreja” (1 Coríntios 14:6-12).

Aqui, o apóstolo não está proibindo ninguém de falar em línguas, apenas ensina que devemos ser racionais ao fazê-lo. Ele recomenda que quem fala em línguas ore também para que tenha o dom de interpretar (1 Coríntios 14:13). Sugere ainda que falemos em línguas em momentos de adoração, porque, quando adoramos, falamos a Deus. Se estamos falando com Deus, podemos falar em línguas, pois Ele compreende o que dizemos. Paulo afirma que, quando oramos em espírito, oramos bem. Orando em espírito, edificamos nossa alma. Contudo, devemos saber que, embora nosso espírito seja edificado, a oração ou a adoração em línguas não edifica a nossa mente. Para conciliar essa questão, o apóstolo recomenda: “Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento” (1 Coríntios 14:15).

Esses jargões incompreensíveis, pronunciados por pessoas que afirmam falar em línguas, nada têm a ver com o verdadeiro dom de línguas. A língua dada por Deus como dom pode ser traduzida por um intérprete que conhece o idioma falado ou, ainda, pela manifestação do dom de interpretação (1 Coríntios 14:27). No dia de Pentecostes, os apóstolos falaram em línguas que foram entendidas claramente pelos ouvintes, pois cada um os ouvia em seu próprio idioma (Atos 2:1-12). Língua é um sistema de comunicação usado por seres humanos para expressar sentimentos, pensamentos e ideias, dentro de regras e símbolos específicos. Por isso, não se pode considerar como língua a verbalização de sons desconexos, incapazes de transmitir uma mensagem inteligível. Esses jargões não comunicam nada, não têm tradução nem interpretação, pois carecem de sentido. Precisamos de maturidade para não oferecer a Deus um culto irracional (Romanos 12:1) e para não sermos enganados por falsos dons. Afinal, nem toda manifestação é de origem divina (Mateus 7:21-23).

Também não podemos chamar de profecia manifestações sem sentido, que resultam em mensagens confusas. Em muitas igrejas, surgem supostas profecias baseadas em informações previamente conhecidas sobre algumas pessoas ou em declarações genéricas, lançadas ao acaso, que acabam se encaixando em alguém do grupo. É preciso vigilância para não sermos enganados.

Deus não precisa levantar profetas em todos os cultos. Diariamente, Ele já nos fala por meio da sua Palavra, que é a verdadeira profecia (2 Pedro 1:20-21). Além disso, a profecia deve ser usada com responsabilidade, nunca de forma indiscriminada. Ela também precisa ser avaliada: “Tratando-se de profetas, falem dois ou três, e os outros julguem cuidadosamente o que foi dito” (1 Coríntios 14:29).

Também não é bíblico afirmar que quem fala em línguas ou profetiza não pode se calar, como se fosse impossível controlar o Espírito Santo. É fundamental lembrar que, ao falar em línguas ou profetizar, não é Deus falando diretamente, mas a pessoa comunicando o que recebeu de Deus. Trata-se do espírito da pessoa, e não do Espírito Santo. Por isso Paulo afirmou: “Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas. Pois Deus não é Deus de desordem, mas de paz, como em todas as congregações dos santos” (1 Coríntios 14:32-33).

Capítulo VII - RECOMENDAÇÕES BÍBLICAS SOBRE O USO DOS DONS

Paulo fala dos dons com o objetivo de instruir a Igreja sobre o assunto. Ele disse à Igreja em Corinto que não queria que fossem ignorantes acerca dos dons espirituais (1 Coríntios 12:1). Era a ignorância nesse assunto que produzia dissensões na congregação. Corinto foi uma Igreja que abundou nos dons, mas que, pela falta de conhecimento de uns e pelos interesses egoístas de outros, também vivenciou uma grave crise espiritual, originada pelo uso indevido dos dons, trazendo divisão, discórdia e até apostasia. Paulo pediu aos irmãos que lutassem pelo entendimento entre eles e que não se deixassem levar por aqueles que provocavam desavenças com o propósito de satisfazer o próprio ego (1 Coríntios 1:10). Por causa da situação espiritual da Igreja, Paulo disse que falava a carnais, não a espirituais; a crianças, não a adultos (1 Coríntios 3:1-5). Assim, no intuito de reconduzir a Igreja aos trilhos da Palavra de Deus, ele deu instruções claras sobre diversos assuntos e doutrinas, incluindo o uso dos dons.

Os Dons Devem ser Exercitados em Amor

Os dons só têm valor se forem exercitados em amor. Sem amor, eles apenas produzem ruídos que não geram nada de permanente ou edificante. Paulo diz aos coríntios o seguinte:

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine. Ainda que eu tenha o dom de profecia e saiba todos os mistérios e todo o conhecimento, e tenha uma fé capaz de mover montanhas, se não tiver amor, nada serei. Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me valerá” (1 Coríntios 13:1-3).

Para que os dons sejam uma realidade na Igreja, é necessário que haja uma clara compreensão de que ela é um corpo; que, como corpo, é composta de muitos membros; que cada membro tem sua importância no organismo e exerce função específica; e que é a diversidade entre os membros que produz a unidade do corpo (1 Coríntios 12:12-14). Sem o amor, não é possível conviver na diversidade sem quebrar a unidade. É justamente por isso que Paulo é enfático ao falar de diversidade e unidade, definindo claramente o que é amor:

“O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca perece; mas as profecias desaparecerão, as línguas cessarão, o conhecimento passará” (1 Coríntios 13:4-8).

Quando há amor verdadeiro, não há espaço para espírito de superioridade nem para práticas egocêntricas. Ninguém que recebe este ou aquele dom se torna superior aos demais. Há pessoas, ditas profetas, que se utilizam do que Paulo diz em 1 Coríntios 14:5 para se colocarem em nível de superioridade em relação aos demais cristãos. Mas aqui Paulo não está se referindo à pessoa, e sim à manifestação do Espírito Santo falando para a Igreja. Ele faz um comparativo entre o dom de profetizar e o dom de línguas, mostrando que, na vida prática, quem profetiza traz edificação à Igreja, enquanto aquele que fala em línguas edifica a si mesmo. Ora, o que profetiza fala em linguagem compreensível a todos; já o que fala em línguas fala de forma incompreensível e não pode ser entendido, a menos que haja intérprete. Como o propósito dos dons é edificar a Igreja, a superioridade está na mensagem que edifica, não na pessoa que a transmite (1 Coríntios 14:12-13). Desde que o propósito seja a edificação da Igreja, todos os dons são igualmente importantes.

“O olho não pode dizer à mão: ‘Não preciso de você!’ Nem a cabeça pode dizer aos pés: ‘Não preciso de vocês!’ Ao contrário, os membros do corpo que parecem mais fracos são indispensáveis, e os membros que pensamos serem menos honrosos tratamos com especial honra. E os membros que em nós são indecorosos são tratados com decoro especial, enquanto os que em nós são decorosos não precisam ser tratados de maneira especial. Mas Deus estruturou o corpo dando maior honra aos membros que dela tinham falta, a fim de que não haja divisão no corpo, mas, sim, que todos os membros tenham igual cuidado uns pelos outros. Quando um membro sofre, todos os outros sofrem com ele; quando um membro é honrado, todos os outros se alegram com ele. Ora, vocês são o corpo de Cristo, e cada um de vocês, individualmente, é membro desse corpo” (1 Coríntios 12:21-27).

Observemos como Deus promove um processo de compensação a fim de que todos sejam iguais. Os membros mais fracos são tratados com mais honra, e os mais decorosos com menos honra, para que, como diz o apóstolo, não haja divisão no corpo e todos tenham igual cuidado uns pelos outros.

Entre os apóstolos de Jesus houve uma discussão para saber quem era o maior. Como não chegaram a uma conclusão, levaram a dúvida até Jesus. A resposta do Mestre foi simples e prática:

“Os reis das nações dominam sobre elas; e os que exercem autoridade sobre elas são chamados benfeitores. Mas vocês não serão assim. Ao contrário, o maior entre vocês deverá ser como o mais jovem, e aquele que governa, como o que serve. Pois quem é maior: o que está à mesa, ou o que serve? Não é o que está à mesa? Mas eu estou entre vocês como quem serve” (Lucas 22:25-27).

Na Igreja do Senhor não há lugar para senhores, apenas para servos. Ao recebermos um dom, devemos nos colocar na condição de servos para que sejamos realmente instrumentos de Deus, trazendo bênção e edificação para o Seu povo.

Os Dons Devem ser Exercitados com Sabedoria

Referindo-se ao exercício dos dons, Paulo diz que devemos agir como adultos, não como crianças (1 Coríntios 14:20). A sensatez e a maturidade são qualidades indispensáveis àqueles que desejam prestar ao Senhor um culto racional. Aqui, o termo “racional” pode ser entendido também como “espiritual”. A racionalidade não sufoca a espiritualidade; pelo contrário, permite ao crente experimentar a verdadeira manifestação do Espírito Santo na Igreja, sem se deixar contaminar por meninices, exageros ou falsas manifestações do Espírito.

Há muitos crentes que, no exercício dos dons, promovem desordens na Igreja e atribuem seus excessos à atuação do Espírito Santo. O Espírito Santo é educado e ordeiro; a desordem é fruto da insensatez. A ordem no culto é necessária para que a operação do Espírito Santo beneficie a todos e não cause escândalos. No dia de Pentecostes estavam reunidos cerca de cento e vinte irmãos (Atos 1:15), que, de repente, começaram a falar em outras línguas conforme o Espírito Santo lhes concedia. Não há na Bíblia registro de que tenham promovido desordem, transformando a reunião em uma verdadeira Babel. Pelo contrário: se não houvesse ordem entre eles, não seria possível distinguir a mensagem em cada idioma no qual falavam das grandezas de Deus à multidão que foi atraída para o cenáculo (Atos 2:4-11). Muitos dentre a multidão ficaram perplexos porque cada um ouvia os discípulos falarem em seu próprio idioma, apesar de todos serem galileus.

É um erro grave atribuir os excessos de alguns, no exercício dos dons, ao Espírito Santo. Ele não interfere no equilíbrio emocional de ninguém, nem torna alguém inconsciente. “O espírito dos profetas está sujeito aos profetas” (1 Coríntios 14:32). Isso significa que o crente não perde o domínio próprio quando Deus o está usando. A alienação da consciência e do domínio próprio do ser humano é obra de Satanás, não de Deus. Nosso Deus não é Deus de confusão nem de desordem, mas de paz (1 Coríntios 14:26-33).

Os Dons Devem Ser Exercitados na Igreja

Há cristãos que se apropriam dos dons como sendo propriedade particular. Tais pessoas se colocam em posição de superioridade em relação aos demais irmãos. Por entenderem os dons como propriedade particular, acham que devem usá-los como bem entendem e onde melhor lhes convier. Há, inclusive, aqueles que usam os dons com o objetivo de se autopromoverem, espiritual e financeiramente, preferindo exercitá-los em consultórios ou reuniões particulares. É muito comum a realização de reuniões particulares para profecias e curas, sem qualquer envolvimento da Igreja como organismo vivo ou da liderança da Igreja como guias espirituais do povo de Deus.

A Igreja não tem necessidade de nenhum trabalho especializado apartado dela. Como os dons foram dados para edificação da Igreja e para o bem comum, devem ser exercitados somente nela:

“Assim acontece com vocês. Visto que estão ansiosos por terem dons espirituais, procurem crescer naqueles que trazem edificação para a igreja. [...] Portanto, que diremos, irmãos? Quando vocês se reúnem, cada um de vocês tem um salmo, ou uma palavra de instrução, uma revelação, uma palavra em uma língua ou uma interpretação. Tudo seja feito para a edificação da igreja. Se, porém, alguém falar em língua, devem falar dois, no máximo três, e alguém deve interpretar. Se não houver intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus” (1 Co 14:12,26-28).

Todos os dons podem ser usados na congregação (Atos 3:1-6; 5:12-16; 14:7-10). Paulo dedica o capítulo 14 de 1 Coríntios para falar do propósito dos dons. Observemos que ele é repetitivo ao afirmar que os dons têm como propósito promover a edificação da Igreja (versos 3, 4, 5, 12, 17 e 26). No versículo 26 ele diz:

“Portanto, que diremos, irmãos? Quando vocês se reúnem, cada um de vocês tem um salmo, ou uma palavra de instrução, uma revelação, uma palavra em uma língua ou uma interpretação. Tudo seja feito para a edificação da igreja.”

É claro que Paulo sabia que muitos iriam discordar do seu ensinamento, afinal, ele estava confrontando os interesses pessoais daqueles que queriam — e ainda querem — usar os dons em seu próprio benefício. Em defesa de seus interesses particulares, muitos se arvoram de uma espiritualidade superior aos demais e afirmam ter recebido autorização do Espírito Santo para usarem os dons como bem querem e entendem.

A estes, ele disse: “Se alguém pensa que é profeta ou espiritual, reconheça que o que lhes estou escrevendo é mandamento do Senhor. Se ignorar isso, ele mesmo será ignorado” (1 Coríntios 14:37).

A Bíblia ensina que, no uso dos dons, não devemos ir além do que está escrito. Os dons espirituais nunca contradizem o que a Bíblia diz (1 Coríntios 14:6) e também não podem trazer doutrinas ou práticas para a Igreja que não estejam de acordo com a doutrina bíblica.

A Bíblia, em si, é a Palavra da Verdade. Jesus disse em sua oração sacerdotal, referindo-se à Igreja: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (João 17:17).

A Bíblia é a maior autoridade doutrinária na Igreja, e nada, em matéria de ensino, dogma ou doutrina, pode ir de encontro a ela. Paulo afirmou: “[...] ainda que nós ou um anjo dos céus pregue um evangelho diferente daquele que lhes pregamos, que seja amaldiçoado!” (Gálatas 1:8).

Capítulo VIII - REFLEXÕES FINAIS

Os dons são os meios pelos quais o Espírito Santo usa homens e mulheres para fazer a sua obra na terra. Sem os dons, a Igreja deixa de ser um organismo vivo e passa a ser uma organização religiosa, sem poder, sem ação, sem vida. Cada crente é um membro do corpo místico de Cristo na terra, a Igreja. São os dons a energia que faz com que cada membro funcione e cumpra a sua função no corpo. Sem energia, o corpo não funciona, fica inerte e vem a falecer.

Buscar os dons é uma necessidade premente da Igreja, para que ela tenha poder, para que faça a diferença, para que atue de forma a fazer com que o mundo perceba Cristo no nosso meio. A atualidade dos dons é uma realidade porque servimos a um Senhor que não muda. Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e para sempre (Hebreus 13:8).

O misticismo e o ceticismo em relação aos dons são males que enfermam espiritualmente a Igreja. Os céticos, com suas teses de incredulidade, buscam privar a Igreja da graça e da unção de Deus, bem como de tomar posse dos dons que são a energia que mantém viva a Igreja de Cristo na terra, como organismo que tem a função de transformar o mundo através da pregação do Evangelho, além de fazer com que o mundo enxergue Cristo no nosso viver diário, através da manifestação dos dons, como acontecia na Igreja Primitiva. Os místicos, com suas ideias de espiritualizar o que é material e distorcer a manifestação do Espírito Santo na Igreja com suas práticas insensatas e irracionais, confundem os incautos e os fracos na fé, conduzindo-os ao erro e levando muitos a descrer do poder de Deus e também da realidade dos dons na Igreja.

Há também os fanáticos, que são muito semelhantes aos místicos. Ambos espiritualizam o que é material e, pela falta de visão espiritual e da capacidade de discernir os espíritos e manifestações, confundem a manifestação do Espírito Santo com outras manifestações espirituais, atribuindo ao Espírito Santo manifestações puramente carnais e até manifestações do espírito do erro. Tais pessoas enveredam por caminhos que desagradam a Deus, enganando o povo do Senhor com falsas manifestações, promovendo inclusive a apostasia, visto que muitas vezes criam doutrinas falsas que colidem frontalmente com a Palavra de Deus, seguindo o exemplo da profetisa que enganava o povo de Deus na Igreja de Tiatira, a qual, por sua forma ardilosa de conduzir o povo ao erro e à apostasia, o Senhor chamou de Jezabel (Apocalipse 2:20).

A grande diferença entre os místicos e os fanáticos é que os místicos são incautos e desprovidos de conhecimento e sensatez. Já os fanáticos são arrogantes, prepotentes, presunçosos e não medem esforços para impor ao povo de Deus suas doutrinas falsas, criadas ao bel-prazer de homens e mulheres que se dizem cheios do Espírito Santo e de muita santidade, quando, na verdade, há no coração deles engano, falsidade e a busca da autopromoção por meio de práticas e ações que eles chamam de dons do Espírito.

Ensinar com critério e embasado exclusivamente no que diz a Palavra de Deus, sem o uso de qualquer artifício ou argumento alheio à verdadeira doutrina, é o único antídoto para que a Igreja de Cristo fique imune a tais mazelas espirituais que tanto a enfermam e promovem a desordem, a apostasia e o descrédito em relação à verdadeira manifestação do Espírito Santo na Igreja por meio dos dons. É isto que devem fazer aqueles que têm compromisso com a Palavra de Deus, seguindo o exemplo de Elias, que correu todos os riscos, inclusive o de ser morto, para ensinar ao povo de Israel a palavra de Deus, buscando levá-los de volta ao centro da verdadeira vontade do Senhor. O Senhor disse pela boca do profeta Isaías: “O meu povo será levado cativo por falta de conhecimento” (Isaías 5:13).

Os dons são uma realidade para a Igreja na atualidade, da mesma forma que foram para a Igreja Primitiva. O que necessitamos é buscá-los com o propósito de engrandecer e glorificar o nome do Senhor, sabendo que eles são dispensados à Igreja com o objetivo claro de trazer assistência, consolo, edificação e crescimento espiritual. Os dons não são propriedade particular de ninguém, nem são dados a alguém por mérito próprio. Tudo que recebemos do Senhor é por meio da graça. Ninguém é santo o suficiente para merecer alguma coisa de Deus; tudo o que Ele derrama sobre a nossa vida o faz porque é um Deus misericordioso, que olha o homem de forma diferente de nós, humanos. O homem vê a aparência, mas o Senhor vê o que há no coração (1 Samuel 16:7).

Que o Senhor continue a derramar os dons sobre a sua Igreja, a fim de que ela viva a plenitude do Espírito Santo, mostrando ao mundo que o Deus a quem servimos está vivo e é o mesmo ontem, hoje e sempre. Amém!

 

Pr. Gilvan de Sousa
@pr.gilvan.sousa

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