CONFRONTANDO PARADIGMAS PARA ALCANÇAR O PROPÓSITO
INTRODUÇÃO
Para desenvolver nosso texto vamos nos apropriar da narrativa bíblica feita pelo apóstolo João, do encontro de Jesus com a mulher samaritana, descrita no capítulo 4, do Evangelho que leva o nome do apóstolo. Ao analisar o texto, vemos que naquele encontro Jesus confrontou paradigmas geográficos (Samaria), étnicos e históricos (judeus × samaritanos), morais (mulher marginalizada) e, religiosos (lugar de adoração: Jerusalém vs Monte Gerizim).
Objetivando trazer um melhor entendimento dos argumentos, vamos trazer o significado etimológico do termo. Paradigma, vem do grego clássico παράδειγμα (parádeigma), formada por dois elementos: παρά (pará) – “ao lado de”, “junto de”, “conforme”, “modelo” e; δείκνυμι (deíknymi) – “mostrar”, “apontar”, “indicar” e, significa "um exemplo", "um modelo de referência", "Um padrão que orienta pensamento, decisão e comportamento". Assim, significa algo que é mostrado lado a lado para servir de comparação de um modelo ou padrão a ser seguido.
1. TRADIÇÕES, REGRAS E CRENÇAS QUE NOS LIMITAM
Ao longo da nossa história, tradições, regras, crenças moldam a nossa vida pessoal, familiar, social, religiosa, inclusive ministerial. Muitos de nós pastores estamos presos a tradições culturais dos nossos antepassados, a regras denominacionais que não se aplicam mais à realidade do meio em que vivemos e a liturgias que fazem com que o culto, pelo excesso de regras e falta de graça, se torne tão cansativo que pessoas que nos visitem saiam com a convicção de não voltar para cultuar outra vez na nossa congregação.
Tenho participado de cultos que liturgicamente são impecáveis, mas, espiritualmente um desastre. Tem prelúdio, momento de louvor, ofertório, mensagem, oração congregacional, pósludio etc, mas falta o principal: a presença de Deus, a graça e a unção do Espírito. Segundo a tradição está tudo certo, mas nada é capaz de tocar os corações, de fazer com que as pessoas desejem ter um encontro real com Jesus e se transformem em verdadeiros adoradores. A mensagem é homileticamente perfeita, teológica e filosoficamente bem construída e pregada, mas que não comunica a Palavra que é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê (Romanos 1:16) e, por isso, não cumpre o propósito.
Evangelho não é conceito, não é tradição, não é filosofia. É boa notícia, é novidade, é algo que chama a atenção, que toca corações e que comunica Jesus e o plano divino de salvação trazendo alegria e desejo de conhecer o Messias (João 4:19, 29).
2. JESUS CONFRONTOU PARADIGMAS (João cap. 4)
Voltando à narrativa do encontro de Jesus com a mulher samaritana, observamos que Jesus confrontou alguns paradigmas, vejamos:
2.1 O paradigma étnico (João 4:9)
Jesus ia de Jerusalém para a Galileia e disse que "Era-lhe necessário passar por Samaria" (v.4). Passar por Samaria era o caminho mais curto, mas por questão histórica e identitária, os judeus evitavam esse caminho.
Havia entre judeus e samaritanos uma profunda barreira histórica e identitária. Os samaritanos eram considerados impuros pelos judeus por serem resultado de um processo de miscigenação ocorrido após a invasão assíria, em 722 a.C. Com a conquista do Reino do Norte (Israel), os assírios implantaram uma política deliberada de deportações e reassentamentos populacionais, promovendo a mistura entre israelitas remanescentes e povos estrangeiros. Essa ruptura étnica, religiosa e cultural consolidou um antagonismo que perdurou por séculos e jamais havia sido plenamente superado.
Mas por quê era necessário passar por Samaria? Se analisarmos do ponto de vista humano, geográfico ou histórico não era necessário. Judeus piedosos evitavam Samaria, preferindo caminhos mais longos para não se contaminarem cultural ou religiosamente. Entretanto, do ponto de vista divino, era necessário, sim. Jesus tinha um propósito a cumprir. Em Samaria havia pessoas que também careciam de salvação, que precisavam ser alcançados pela graça.
Mas Jesus não parou por ai. Ao dizer que era necessário passar por Samaria Ele estava disposto a confrontar todos os paradigmas que o impediriam de cumprir o propósito.
2.2 O paradigma histórico e geográfico (João 4:1-5)
Historicamente judeus e samaritanos não se falavam. Nos dias de Jesus, a terra de Israel era composta por três grandes regiões — Judeia, Samaria e Galileia — separadas não apenas por limites geográficos, mas por profundas tensões históricas, religiosas e identitárias.
Em sua caminhada, Jesus chegou à cidade de Sicar, um centro religioso marcado por tensões étnicas, exclusão social e um moralismo seletivo. Embora possuísse tradição, história e símbolos sagrados, carecia da revelação plena. Conhecia Jacó, Moisés e a Lei, mas não reconhecia o Messias. Havia ali religião sem vida, culto sem revelação e uma fonte herdada dos patriarcas que, embora histórica, não era capaz de saciar a sede da alma.
Mas por quê Jesus escolheu Sicar? Não foi por acaso; havia uma necessidade missionária (v.4). Sicar representava lugares onde a fé existe, mas está distorcida. A tradição é preservada, mas o propósito foi perdido; as pessoas estão perto da “água”, mas continuam sedentas. Sícar é o retrato de cristãos religiosos, porem vazios de vida; igrejas com história mas que não conseguem impactar almas; pessoas próximas do sagrado, mas distantes da graça. Jesus foi a Sicar para mostrar que o Evangelho não conhece barreiras geográficas, étnicas ou culturais. O verdadeiro Evangelho invade corações onde quer que eles estejam e os transforma. Este é o propósito.
2.3 O paradigma da exclusão social (João 4:6-9)
Ao ser abordada por Jesus, que lhe pediu água para beber, a mulher respondeu dizendo que judeus não se comunicam com samaritanos (v.9). Estar buscando água na fonte ao meio dia, indicava que se tratava de uma mulher socialmente excluída. Seu estilo de vida ia de encontro aos princípios morais do seu povo.
Outro ponto importante: um religioso ou um líder judeu não dirigia a palavra a uma mulher que estivesse sozinha. A abordagem de Jesus quebrou totalmente este princípio e, consequentemente, o paradigma da exclusão social.
Acontece que Jesus tinha um propósito, e não seria a resposta um tanto indelicada da mulher que o faria desistir. Assim, Ele reagiu dizendo: "Se você conhecesse o dom de Deus e quem lhe está pedindo água, você lhe teria pedido e ele lhe teria dado água viva" (v.10). A reação de Jesus despertou o interesse da mulher, que, sem perda de tempo, disse: "O senhor não tem com que tirar a água, e o poço é fundo. Onde pode conseguir essa água viva? Acaso o senhor é maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, do qual ele mesmo bebeu, bem como seus filhos e seu gado? " (v. 11-12).
Logo, Jesus não perdeu tempo e foi direto ao ponto: "Quem beber desta água terá sede outra vez, mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Pelo contrário, a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna". (v. 13-14).
A questão não é a religião; o que importa é conduzir as pessoas a beberem da agua da fonte que jorra para a vida eterna. A mensagem do Evangelho precisa despertar interesse nas pessoas, afinal, Evangelho é novidade, boa notícia.
2.4 - O paradigma da religião (João 4:15-30)
Os samaritanos não era um povo sem religião. Eles criam na Torá, nos patriarcas e tinham um local de culto que eles consideravam sagrado: o monte Gerizim. Mesmo sendo vitima do preconceito social que sofria do seu povo, aquela mulher era uma pessoa religiosa, conhecia os princípios da sua fé e tinha dúvida sobre outras questões, especialmente sobre o lugar correto para a adoração.
No decorrer da conversa, ficou clara a razão do preconceito contra ela. Ao ter seu interesse despertado pela resposta de Jesus, disse-lhe: "Senhor, dê-me dessa água, para que eu não tenha mais sede, nem precise voltar aqui para tirar água" (v.15). Jesus mandou que ela chamasse seu marido, e ela respondeu: "Não tenho marido". A mulher tivera cinco maridos e agora estava vivendo com um homem que não era seu marido. Ao perceber que Jesus revelou sua vida, mesmo sendo ele um judeu desconhecido, declarou: "Senhor, vejo que é profeta. Nossos antepassados adoraram neste monte, mas vocês, judeus, dizem que Jerusalém é o lugar onde se deve adorar".
Sua dúvida revelava novo paradigma a ser confrontado: os dogmas religiosos.
Muitos religiosos vivem esse mesmo dilema: qual a religião certa? Qual a igreja que eu devo frequentar? Que regras eu preciso observar para ser salvo? Infelizmente, até hoje, a religião muitas vezes não aponta o caminho; prefere indicar atalhos. Não apresenta a graça salvadora outorgada por Jesus, preferindo indicar as tradições, as regras, os costumes, muitas vezes descontextualizados com o que nos ensina a Palavra de Deus, a Bíblia Sagrada.
Não é o local nem a religião que validam a adoração. O verdadeiro adorador adora em espírito e em verdade, independente do lugar que está. Deus Pai está procurando adoradores assim, que não se prendem a dogmas ou liturgias, mas que se entrega de corpo e alma ao Senhor e permite que sua adoração seja verdadeira, sincera e sem subterfúgios.
O Reino de Deus não é limitado por rótulos, tradições ou preconceitos religiosos. A igreja precisa discernir quando está defendendo a verdade bíblica e quando está apenas protegendo tradições culturais. O propósito de Deus sempre é maior que nossas divisões históricas. Muitas vezes, a igreja para de crescer porque seus membros e líderes estão presos aos costumes, tradições denominacionais e preceitos morais e espirituais que não têm amparo bíblico.
Para muitos líderes e pastores, manter as tradições são mais importantes do que conduzir vidas cansadas e oprimidas aos pés de Jesus. Há tradição, mas falta misericórdia (Mateus 9:13); tem doutrina, mas falta amor verdadeiro (1 Coríntios 13:1-3); há culto, mas falta verdadeira adoração (João 4:21-24); há música, mas falta louvor; há mensagem, mas falta palavra de Deus ungida, que comunica a essência do Evangelho e conduz pessoas à presença de Deus (Romanos 1:16).
2.5 O paradigma do tempo da colheita (João 4:34-39)
Jesus parou na fonte para descansar enquanto seus discípulos foram à cidade comprar comida. O cansaço e a fome não o impediu de cumprir o propósito de salvar aquela mulher e, por consequência, sua cidade. Para mostrar aos seus discípulos que a missão da igreja é urgente, Ele a comparou à colheita. Se os campos já estão brancos, não há tempo para esperar. A colheita precisa ser imediata para que não haja prejuízo.
É exatamente isso que Jesus espera da igreja: urgência no cumprimento do propósito: a Grande Comissão (Mateus 28:19-20). A igreja do século XXI perdeu o senso do propósito. Gasta-se muito tempo e dinheiro em eventos, encontros de confraternização e suposta comunhão, dissociados do verdadeiro propósito, que é conduzir almas aos pés de Cristo e discipular pessoas. Investe-se muito em estruturas, em itens de conforto nos templos, sonorização sofisticada, iluminação cénica, mas quase nada em ações concretas de evangelismo e missões, em ensino do evangelho genuíno. A igreja tem tudo, menos graça, unção, relacionamento com Deus.
3. O PROPÓSITO DEVE SER MAIOR QUE OS PARADIGMAS (João 4:39-42)
Quando a mulher disse esperar o Messias, Jesus se apresenta dizendo: "Eu sou o Messias! Eu, que estou falando com você" (v.26). Aqui começa o cumprimento do propósito: a mulher foi alcançada pelo Evangelho, transformando-se em uma missionária regenerada que levou ao seu povo uma mensagem convincente. A mulher que não tinha qualquer credibilidade em sua comunidade, agora transformada, consegue fazer-se acreditar e conduzir toda a população de sua cidade até a fonte. O propósito estava cumprido: não somente a mulher, mas todo seu povo creu em Jesus.
Quando falamos de confronto de paradigmas, não estamos afirmando que devemos confrontar princípios, valores, doutrina. Esses não são paradigmas, mas balizadores da nossa conduta cristã. O que deve ser confrontado são preceitos humanos, dogmas religiosos, costumes, tradições. É isso que trava a igreja no alcance do seu propósito, que engessa a obra de evangelismo, missões, discipulado, edificação do povo de Deus.
Líderes cristãos, principalmente das igrejas tradicionais, precisam entender que, embora a Palavra de Deus não mude, a forma de comunicá-la deve estar em constante processo de mudança. Vemos pastores mantendo liturgias de culto e pregando a Palavra da mesma forma que fazia no século passado, principalmente dos anos 1960 a 1980. São cultos cansativos, sem objetividade, sem propósito, sem energia, sem vida e incapazes de comunicar a Palavra de Deus de modo que a atual geração consiga assimilá-la. Isso explica, em grande parte o esvaziamento das igrejas tradicionais na atualidade. As pessoas estão preferindo frequentar igrejas que falam a língua que elas entendem e participar de cultos que não lhe causa tédio.
É ai que surge um grande problema: a igreja comprometida com a Palavra de Deus está abrindo espaço para grupos religiosos cujo objetivo único é arrebanhar pessoas para aumentar a arrecadação financeira. Os mercenários e os falsos mestres, tão combatidos pelos apóstolos (2 Pedro 2:1-22; 2 Timóteo 3:1-8), estão avançando e tomando posse do rebanho, porque os pastores comprometidos com Cristo estão abrindo espaço para eles enquanto lutam por, tão somente, manter o status quo e permanecer na zona de conforto. A igreja precisa avançar, quebrar os paradigmas atuais e pregar um evangelho contextualizado como Cristo e Paulo fizeram (1 Coríntios 9:17-24).
As igrejas tradicionais necessitam rever seus próprios conceitos e paradigmas. Isso não significa dizer que precisam deixar de ser tradicionais; pelo contrário, podemos e devemos sim continuar sendo tradicionais, porém relevantes, contextualizados com a sociedade em que vivemos, alcançando as novas gerações e segmentos sociais que, pela forma pouco convidativa dos cultos tradicionais, relutam em frequentar essas igrejas.
Frequentemente ouço colegas pastores buscando justificar o esvaziamento de suas igrejas usando um jargão completamente fora de propósito, ao dizerem que Deus quer quantidade e não qualidade. Essa afirmativa confronta o ministério de Jesus, que pregou para grandes multidões (Mateus 4;25; 5:1; 7:28; 8:1; 19:2). Também invalida o que aconteceu no dia de pentecostes e no dia a dia da igreja primitiva, quando milhares de pessoas passaram a seguir Jesus (Atos 2:42,47; 4:4). A igreja necessita perseguir o propósito de cumprir a grande comissão (Mateus 28:19-20). A igreja que não prega o evangelho de forma contextualizada, que não batiza e que não faz discípulos já não é mais uma igreja, mas apenas uma organização religiosa.
CONCLUSÃO
Jesus foi o maior exemplo de que o propósito deve ser perseguido e de que paradigmas precisam ser confrontados e quebrados quando paralisam o avanço da igreja. Ninguém, mais do que Jesus, pregou uma mensagem tão contextualizada e antenada com a sociedade da sua época, com sua geração. Paulo, o maior missionário de todos os tempos, também agiu da mesma forma.
As igrejas tradicionais do século XXI precisam rever seus métodos, costumes e tradições. Precisa valorizar menos o estatuto e mais a Bíblia. O estatuto deve servir apenas para atender às demandas administrativas. As atividades eclesiásticas, as necessidades do povo e os anseios da atual geração devem ser tratados à luz da Palavra de Deus. O evangelho é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê, tanto judeus quanto gregos (Romanos 1:16).
Muitas igrejas não fecharam as portas fisicamente, mas fecharam espiritualmente. Continuam com cultos, agendas e estruturas, porém perderam o senso de propósito. Não é falta de recursos, prédios ou localização; é excesso de paradigmas não confrontados. Jesus, em João 4, nos ensina que a estagnação espiritual é curada quando paradigmas são quebrados. Uma igreja decadente não precisa, primeiramente, de novos programas, mas de um novo alinhamento com o propósito do Pai.
A sociedade mudou, essa geração pensa e age de forma particular, contextualizada com as novas tecnologias, mas a igreja permanece falando para um público que já não existe. Quando a igreja para de conversar com a geração atual, começa a falar sozinha. A sociedade contemporânea não rejeita Jesus; rejeita a forma como Ele está sendo apresentado. Igrejas não morrem por perseguição externa, mas por acomodação interna. A decadência não é o fim; pode ser o ponto de ruptura para um novo começo.
Que o Senhor nos ajude a libertar-nos da fonte das tradições que estão secando, para que o rio que conduz à vida eterna possa brotar. Amém!
Excelente, pastor. Infelizmente, essa é a verdade. Quando sai o livro ?
ResponderExcluirNo momento certo Deus abrirá uma porta
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