À LUZ DA BÍBLIA, O HOMEM É UM SER DICOTÔMICO OU TRICOTÔMICO?
Recentemente, participando de um concílio pastoral, o avaliador do candidato a pastor fez a seguinte pergunta ao irmão que estava sendo avaliado: "Biblicamente o homem é um ser dicotômico ou tricotômico?" O candidato respondeu que na sua opinião o homem é um ser dicotômico, e justificou sua resposta, apresentando alguns textos bíblicos, os quais, na minha opinião, do ponto de vista das regras da hermenêutica bíblica não fundamentava adequadamente a resposta. Isso me gerou uma inquietação e me motivou a investigar o tema, avaliando o que defendem os teólogos reformados e não reformados, à luz do que diz a Bíblia Sagrada.
Comecemos com o que afirma Jonh Calvino (1509 a 1564), teólogo francês e um dos principais lideres da Reforma Protestante. Em sua obra clássica " As Institutas da Religião Cristã, Livro I, Capítulo 15, Seções 2-4 - traduzido por Walter Bohm, publicada pela Editora Cultura Cristã " ele diz: "Por ‘alma’ entendo uma substância imortal, ainda que criada, que é a parte mais nobre do homem. Às vezes, ela é chamada de ‘espírito’ na Escritura, mas isso não implica que o homem tenha duas partes imateriais, e sim que ‘alma’ e ‘espírito’ são termos intercambiáveis para a mesma realidade." Aqui Calvino defende com clareza que rejeita a ideia de que o homem é um ser tricotômico, composto por corpo, alma e espírito. Na sua visão alma (gr. psuché) e espírito (gr. pneuma) são a mesma coisa e, quando o texto bíblico fala de espírito está se referindo à alma, uma vez que são seres intercambiáveis da mesma realidade.
Jacobus Arminius (1560 a 1609) teólogo holandês, ou Armínio como é mais conhecido no meio teológico brasileiro, era também um defensor da dicotomia do ser humano. Ele entendia que o homem é composto de corpo e alma e concordava com Calvino em que o termo "espírito" era usado em certos textos na Bíblia para referir-se a alma. Ele afirmou que: "O homem é composto de duas partes essenciais, a saber, o corpo e a alma; a alma, sendo de natureza espiritual e imortal, é distinta do corpo e sua substância não é derivada dele." (Works of Arminius, Disputation VII, "On the Creation of Man").
Armínio rejeitava com veemência em suas obras a visão do homem como ser tricotômico (corpo, alma e espírito), argumentando que esta visão não se sustenta de forma consistente na Bíblia. Na sua opinião a alma abarcava a capacidade racional e também a relação do ser humano com Deus, sem a necessidade de haver um terceiro elemento denominado espírito.
Tomás de Aquino, um frade católico italiano, cujas obras muito influenciou a teologia e a filosofia, principalmente na tradição conhecida como Escolástica, seguiu a ideia de Agostinho (354 a 430), defendendo a tese de que o homem é um ser dicotômico. Ele também rejeitou a teoria do espírito como um terceiro elemento, como sugere os defensores da tricotomia. Na Suma contra os Gentios (SCG, II, cap. 68), ele argumentou que: “O homem não é um composto de três partes, mas de duas: a alma e o corpo. O termo ‘espírito’ frequentemente se refere à alma enquanto orientada para Deus.”
Aurélio Agostinho de Hipona (354 a 430), mais conhecido como "Santo Agostinho", bispo católico, cujas obras influenciaram a teologia e a filosofia, defendeu em várias de suas obras a tese da dicotomia, afirmando que o homem é formado por um corpo material e uma alma imortal. No livro "A Cidade de Deus" (De Civitate Dei, XIII, 24), Agostinho declara - “O homem é composto de alma e corpo. A alma, sendo racional, governa o corpo e é a sede da personalidade.” As teses de Agostinho e de Tomás de Aquino, embora tenham sido teólogos católicos, influenciaram fortemente os teólogos protestantes reformados.
Diferentemente dos teólogos já citados, o teólogo Orígenes (185 a 245 d.C), conhecido como Orígenes o cristão ou Orígenes de Alexandria, era forte defensor da tese de que o homem é um ser tricotômico. Em sua obra "De Principis" (Sobre os Princípios), afirmou que: “O homem é composto de três partes: o corpo, a alma e o espírito. O corpo é a parte visível e terrena; a alma é o princípio da vida e das paixões humanas; e o espírito é aquela parte que tem capacidade para comunhão com Deus". Para ele não se tratava de uma distinção apenas ontológica, mas também funcional. Ele considerava que o espírito era a parte mais nobre do ser humano, aquela que pode o unir a Deus, enquanto a alma, por sua vez, estaria entre o corpo e o espírito, podendo ela inclinar-se tanto para o corpo quanto para o espírito, a depender de sua decisão de seguir ou não a Deus.
Filósofos gregos, como Pitágoras, e depois dele Platão e muitos outros filósofos gregos e romanos defendiam a tese do homem como ser tricotômico, composto por três elementos: corpo (gr. soma), alma (gr. psuché) e espírito (gr. pneuma). James P. Boyce, em seu livro "Teologia Sistemática - uma introdução aos pilares da fé", nas páginas 284 a 285" afirma que o uso destas "palavras foi marcado no discurso popular grego". Diz ainda que "Em consequência, o apóstolo usa todos os três elementos quando pretende expressar, na linguagem popular a totalidade do homem e de seus atributos". Também afirma que os textos de Mateus 27:50; Marcos 15:37; Lucas 23:46; João 19:30; Atos 7:59, evidenciam o uso promiscuo das palavras "psuché" e "pneuma", apontando que a distinção é incorreta. Em sua argumentação ele defende a tese do homem como ser dicotômico.
O teólogo Eurico Bergstén, em seu livro "Teologia Sistemática" defende com firmeza em sua argumentação que o homem é um ser tricotômico. Para fundamentar sua argumentação ele diz. "Deus, que é trino, criou o homem como um ser tríplice, isto é, com posto de corpo, alma e espírito. O Deus trino, isto é, Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, imprimiu sua semelhança na formação do homem. Também Jesus, quando se fez homem, recebeu um corpo (cf. Hb 10.5), uma alma (cf. Mt 26.38) e um espírito (cf. Lc 23.46). A Bíblia fala muito dessas três partes do homem (cf. 1 Ts 5.23)". Bérgsten usa inclusive a figura do tabernáculo para fortalecer sua tese da tricotomia do homem. Há outros teólogos modernos que também são adeptos da tese da tricotomia do homem. Entre eles estão Watchman Nee, teólogo chinês e Andrew Wommack, teólogo americano.
Apresentados os argumentos dos teólogos reformados que defendem a tese da dicotomia e também dos teólogos não reformados que defendem a tese da tricotomia, os convido a fazermos juntos uma reflexão. Embora a maioria dos teólogos reformados defendam e argumentem a tese da dicotomia, isto não significa que eles sejam os portadores da verdade absoluta. Tampouco podemos afirmar que os defensores da tricotomia também sejam portadores de uma verdade inquestionável. A única palavra que podemos afirmar como verdade incontestável é a Palavra de Deus, a Bíblia Sagrada. A partir da premissa que a Bíblia é a verdade sigamos nossa reflexão.
Apesar dos defensores da tese da dicotomia afirmarem que alma (gr. psuché) e espírito (gr. pneuma) significam a mesma coisa e que não há argumentos bíblicos que nos leve a ter convicção de que o homem é um ser tricotômico, mesmo diante do que Paulo diz em 1 aos Tessalonicenses 5:23 e o escritor aos Hebreus 4:12. Seguindo nosso questionamento a tais argumentos, vejamos se é possível explicar dentro da tese da dicotomia os seguintes textos bíblicos:
- Então disse Maria: "Minha alma engrandece ao Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, (Lucas 1:46-47). Pensando como um teólogo defensor da dicotomia poderíamos transcrevê-lo assim? Minha alma engrandece ao Senhor e a minha alma se alegra em Deus, meu Salvador.
- "Por isso não me calo; na aflição do meu espírito me desabafarei, na amargura da minha alma farei as minhas queixas". (Jó 7:11). Estaria correto transcrevê-lo assim? Por isso não me calo; na aflição da minha alma me desabafarei, na amargura da minha alma farei as minhas queixas.
- “Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais afiada que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão da alma e do espírito, das juntas e medulas, e é poderosa para discernir os pensamentos e intenções do coração” (Hebreus 4:12). Na visão da dicotomia poderíamos transcrever assim: Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais afiada que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão da alma e da alma, das juntas e medulas, e é poderosa para discernir os pensamentos e intenções do coração.
- "E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo (1 Tessalonicenses 5:23). A transcrição na visão dos defensores da tese da dicotomia transcreveriam o texto assim: E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e toda a vossa alma, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.
Nestas transcrições alguma coisa não soa muito bem. Parece que há algo sem sentido. Se Paulo fez uso promíscuo (misturado, indistinto) do termo, como afirma Boyce (2021, 2a ed, p. 285), então seria correto afirmar que Lucas, o escritor do livro de Jó e o escritor aos Hebreus também o fizeram. Será que o texto sagrado traz incorreções tão graves? Será que o Espírito Santo, o inspirador dos escritores sagrados (2 Pedro 1:21-22) permitiria o uso de termos promíscuos no texto sagrado? Ou será que a tese dos teólogos é uma verdade inquestionável enquanto o texto sagrado é uma verdade questionável? Independente do nosso viés teológico, precisamos fazer uma reflexão livre das nossas inclinações à luz, é claro, da Palavra de Deus que é a verdade absoluta, pelo menos para nós os cristãos que aceitamos como a doutrina o princípio de que "a Bíblia não contém a palavra mas ela é a Palavra de Deus".
No início criativo, disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; (Gênesis 1:26a). Embora não esteja explicito o argumento, está implícito que Deus reuniu a Trindade naquele momento - o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Se Deus convida a Trindade para criar uma imagem deles, como um Deus trino criaria um ser dicotômico como sua imagem? Parece obvio que essa imagem deveria ser uma criatura tricotômica. Outro fato bíblico que fortaleceu a tese da tricotomia foi o tabernáculo que Deus mandou Moisés construir. O tabernáculo deveria ser dividindo em três partes: o pátio ou átrio, o lugar santo e o santo dos santos ou lugar santíssimo. O tabernáculo nada mais era do que um templo provisório e morada de Deus (Êxodo 25:8). O corpo do homem é também um templo provisório e morada do Espírito Santo (1 Coríntios 6:19; 3:16-17). Fazendo uma comparação analógica poderíamos dizer que, o átrio como parte visível do tabernáculo tipifica o corpo que é a parte visível do homem. Todas as atividades realizadas no pátio ou átrio estão relacionadas ao corpo (sacrifícios, confissão, limpeza, santificação). O lugar santo como parte invisível tipifica a nossa alma. O lugar santo é um ambiente de adoração, de comunhão com Deus, de alimento e crescimento espiritual. Estas ações estão relacionadas com a nossa alma. Já o santo dos santos ou o lugar santíssimo era também um local invisível, somente acessível ao sumo sacerdote, e era ali onde Deus se manifestava sendo propício e misericordioso com o homem. O santo dos santos é um lugar de conexão com Deus. É através do espírito que o homem se conecta com o Criador. Assim, como morada de Deus parece também obvio que seja um ser tricotômico uma vez que Ele é um ser trino.
Diante destes argumentos defendemos o seguinte:
- O corpo é a parte material e visível do homem e o meio de conexão com o mundo exterior.
- A alma é parte imaterial e sede do nosso intelecto, vontades e emoções é o centro gravitacional do homem. A alma é responsável por nossas decisões, inclusive de servir e adorar a Deus ou não. Quando o homem peca a alma morre e perde a capacidade de conexão com Deus por meio do espírito (Ezequiel 18:4,20; Gênesis 2:17).
- Já o espírito é também imaterial e partícula de Deus recebida no ato da criação, uma vez que somos sua imagem e semelhança (Eclesiastes 12:7) e, é através dele que nos conectamos com Deus (João 15:4-8) quando a alma não está morta como consequência do pecado (Romanos 6:23; Ezequiel 18:4,20).
O homem é o único ser vivo a quem Deus deu a capacidade de dominar, de subjugar (Gênesis 1:28), de decidir (Gênesis 2:16), de dar nome aos demais seres e coisas (Gênesis 2:20), de cultivar e cuidar da terra (Gênesis 2:15), de ter consciência entre o bem e o mal (Gênesis 2:16-17), de ser inteligente e tenha capacidade criativa.
Neste artigo não estou a defender a tese da dicotomia ou da tricotomia, mas a refletir sobre o que a Bíblia nos ensina, uma vez que ela é a maior autoridade. Ela é a Palavra de Deus e a verdade absoluta e inquestionável. Por sua fidedignidade, é questionável qualquer opinião que tente enxertar conceitos que a contradizem ou que tentam defender como verdade conceitos incongruentes à única verdade absoluta, mesmo que defendida por teólogos, filósofos conceituados e respeitados nas academias teológicas. O salmista disse: "A tua justiça é uma justiça eterna, e a tua lei é a verdade" (Salmos 119:142). Também disse Jesus em sua oração sacerdotal: "Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade" (João 17:17). Esta sim, é a única verdade inquestionável. Conclui-se que biblicamente o homem é um ser tricotômico, formado de corpo, alma e espírito.
Acredito que grande maioria das igrejas brasileiras creem na tese da tricotomia.
ResponderExcluirA tese da tricotomia é mais defendida nas igrejas pentecostais e também por pastores e teólogos não reformados.
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